A terapia começa antes do consultório: por que seu psicólogo precisa continuar estudando

Há uma parte da psicoterapia que o paciente não vê.

Ela acontece antes de a câmera ser ligada em um atendimento online ou antes de alguém se sentar à minha frente no consultório.

Acontece nos livros que continuam sendo estudados, nos artigos científicos, nas supervisões, nas discussões de casos, nos cursos e também nos congressos que nos colocam diante de novas pesquisas, técnicas e maneiras de compreender o sofrimento humano.

Foi pensando nisso que voltei do Congresso Wainer, realizado durante três dias, no final de agosto, em Salvador.

E uma frase acabou resumindo o que essa experiência significou para mim:

A terapia não começa quando o paciente entra no consultório.

Três dias para voltar ao consultório com novas perguntas

Foram três dias cercado por quase duas mil pessoas de diferentes lugares do Brasil, em sua maioria psicólogos, acompanhando profissionais da saúde mental discutirem temas diretamente relacionados à nossa prática.

Mas um congresso não acontece apenas quando alguém está no palco.

Ele continua nos corredores.

Nas conversas depois de uma palestra.

Naquela anotação que você faz porque imediatamente se lembra de algo que já apareceu no consultório.

Na troca com outro profissional que enxerga um problema por um ângulo diferente.

Nos livros que você encontra e pensa: “preciso estudar isso melhor”.

E até nas dúvidas que voltam para casa com você.

Talvez essa seja uma das coisas que mais valorizo nesses encontros: nem sempre volto com respostas. Muitas vezes, volto com perguntas melhores.

E perguntas melhores também podem produzir uma prática clínica melhor.

Desta vez, o conhecimento veio até Salvador

Para mim, houve ainda um significado particular.

Quem mora fora dos grandes centros que tradicionalmente concentram congressos e formações sabe que atualização profissional muitas vezes envolve passagens, hospedagem, deslocamentos e alguns dias longe de casa e do consultório.

Desta vez foi diferente.

Um congresso nacional dessa dimensão aconteceu aqui, em Salvador, minha cidade.

Pude acompanhar palestras, conhecer profissionais de diferentes partes do país, conversar com colegas, ampliar minha rede de contatos e visitar espaços de importantes editoras, com livros, materiais e ferramentas voltadas à prática clínica.

Ter tudo isso tão perto permitiu concentrar energia justamente naquilo que mais importava: aprender.

O vídeo: um pouco do que vivi no Congresso Wainer

Neste vídeo, reuni algumas das imagens que gravei durante os três dias de congresso e uma reflexão sobre aquilo que trouxe comigo dessa experiência.

Mas ele também é uma introdução ao que pretendo fazer a partir de agora.

Algumas palestras despertaram questões que considero interessantes não apenas para psicólogos, mas principalmente para quem deseja compreender melhor seus próprios pensamentos, emoções e comportamentos.

Por isso, algumas delas vão se transformar em novos artigos aqui no blog.

Não para reproduzir palestras ou transformar este espaço em uma sala de aula de Psicologia.

Quero fazer outra coisa: traduzir alguns desses conhecimentos para problemas que aparecem na vida real.

 

Mas por que isso deveria importar para quem procura terapia?

Talvez você esteja pensando:

“Tudo bem, mas o que um congresso de Psicologia tem a ver com a minha terapia?”

Tem bastante.

A Psicologia é uma ciência em movimento.

Novos estudos são publicados. Tratamentos são avaliados. Técnicas são aperfeiçoadas. Algumas ideias ganham evidências mais consistentes; outras precisam ser revistas.

Isso significa que a formação de um psicólogo não deveria terminar quando ele recebe o diploma.

No meu caso, trabalhando principalmente a partir da Terapia Cognitivo-Comportamental e de uma Psicologia baseada em evidências, continuar estudando faz parte da responsabilidade que assumo diante das pessoas que me procuram.

Não significa voltar de um congresso e aplicar no paciente a “técnica nova” que acabou de aparecer em uma palestra.

Muito pelo contrário.

Atualizar-se também significa aprender a perguntar:

Para quem essa intervenção funciona?

Em quais situações?

Que evidências temos?

Isso faz sentido para este paciente específico?

Como esse conhecimento se integra ao que já sabemos sobre sua história e sua formulação de caso?

Conhecimento clínico não deveria ser uma coleção de técnicas. Ele precisa ajudar o profissional a tomar decisões melhores.

Quando uma palestra encontra algo que já apareceu no consultório

Esse talvez tenha sido um dos aspectos mais interessantes desses três dias.

Em diferentes momentos, enquanto ouvia os palestrantes, percebi temas que dialogavam diretamente com situações que fazem parte da clínica: ansiedade, esquiva, crenças, relacionamentos, experiências emocionais, espiritualidade, comportamento e tantas outras questões humanas.

É inevitável fazer conexões.

Você escuta um conceito e se lembra de uma pergunta que um paciente já fez.

Ouve a explicação de um mecanismo psicológico e pensa em uma dificuldade que apareceu algumas vezes nas sessões.

Conhece uma nova evidência e percebe que vale a pena voltar à literatura para estudar aquele assunto com mais profundidade.

É nesse ponto que um congresso deixa de ser apenas um evento.

Ele começa a chegar ao consultório.

Não como uma receita pronta, mas como conhecimento que precisa ser estudado, filtrado, confrontado com as evidências e integrado à experiência clínica.

Encurtar minha curva de aprendizado

Existe uma expressão que gosto de usar para explicar o que procuro nessas experiências: encurtar minha curva de aprendizado.

Não no sentido de procurar atalhos.

Na Psicologia, alguns atalhos podem ser bastante perigosos.

Mas no sentido de poder aprender também com pesquisadores, professores e profissionais que dedicaram anos ao estudo de determinados temas.

Um bom congresso permite que, em poucos dias, tenhamos contato com questões que talvez levassem meses para chegar espontaneamente até nós.

Depois vem a parte mais importante.

Voltar.

Ler.

Conferir as referências.

Estudar aquilo que chamou atenção.

Conversar em supervisão quando necessário.

E compreender o que realmente pode contribuir para a prática.

É assim que aqueles três dias podem continuar produzindo aprendizado muito depois que as luzes do auditório se apagam.

Estudar também faz parte do cuidado

Quando uma pessoa procura psicoterapia, ela vê aproximadamente 50 minutos de um trabalho.

Mas há uma parte importante que acontece fora deles.

Formação continuada, leitura, estudo, preparação, formulação de caso, atualização científica e reflexão sobre a própria prática também fazem parte da construção de um atendimento responsável.

E talvez seja por isso que aquela frase com que comecei este texto tenha ficado ainda mais forte depois do Congresso Wainer:

A terapia não começa quando o paciente entra no consultório.

Existe muito trabalho antes desse encontro.

E quero continuar fazendo esse trabalho.

Porque, para mim, estudar também é uma forma de cuidar.

Nos próximos artigos, vou compartilhar alguns dos aprendizados e provocações que trouxe desses três dias em Salvador — sempre tentando responder à pergunta que mais me interessa quando volto de uma formação: como esse conhecimento pode ajudar a compreender melhor as pessoas que chegam até a clínica?

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