Fé e saúde mental: sua espiritualidade ajuda ou aumenta seu sofrimento?

Fé e Psicologia precisam estar em lados opostos?

Estou escrevendo este artigo diretamente de uma experiência que vivi no Congresso Wainer 2026, em Salvador.

Entre tantas discussões sobre psicoterapia e saúde mental, uma palestra do psicólogo e pesquisador Daniel Gontijo, sobre o manejo da espiritualidade e da religiosidade na prática clínica, me provocou uma reflexão que provavelmente ultrapassa as paredes de qualquer consultório:

A sua fé ajuda você a enfrentar a vida ou, em alguns momentos, aumenta seu sofrimento?

Talvez sua primeira reação seja pensar que um psicólogo não deveria conversar sobre religião.

Mas é justamente aí que começa uma discussão interessante.

“Psicólogo não deveria falar de religião”

Depende do que entendemos por falar.

O psicólogo não está no consultório para dizer qual religião está certa.

Não cabe a ele convencer alguém a acreditar em Deus.

Também não cabe convencê-lo de que Deus não existe.

Mas imagine uma pessoa que chega à psicoterapia dizendo:

“Tenho medo de Deus estar decepcionado comigo.”

Ou:

“Será que estou sendo castigado?”

Ou ainda:

“Minha fé é uma das únicas coisas que estão me ajudando a atravessar esse momento.”

Como compreender aquela pessoa ignorando algo que ocupa um lugar tão importante em sua maneira de enxergar o mundo?

Esse foi um dos pontos que mais me chamaram atenção na palestra.

A espiritualidade também faz parte da história de uma pessoa.

Assim como suas relações familiares, trabalho, sexualidade, experiências anteriores, valores e projetos.

Nem toda fé produz a mesma experiência emocional

Outro aspecto apresentado por Gontijo merece atenção.

A literatura discutida durante a palestra aponta associações entre religiosidade e indicadores positivos de saúde mental, mas essa relação é muito mais complexa do que simplesmente concluir que “ter religião faz bem”.

A própria forma como a pessoa vivencia sua espiritualidade importa.

Pense em duas pessoas.

Uma acredita:

“Mesmo nos momentos difíceis, Deus está comigo.”

Outra acredita:

“Se eu errar, Deus vai me castigar.”

As duas acreditam em Deus.

Mas será que vivem emocionalmente a mesma experiência?

Provavelmente não.

Para uma, a fé pode representar acolhimento, esperança e segurança.

Para outra, pode estar associada a vigilância, culpa e medo.

E isso nos leva a uma questão que considero particularmente importante: não basta perguntar se alguém tem fé. Precisamos compreender que relação essa pessoa estabelece com sua própria fé.

Existe ainda algo poderoso chamado pertencimento

Talvez um dos pontos mais bonitos da palestra tenha sido a discussão sobre o componente social da religiosidade.

Uma igreja, um terreiro, uma comunidade espírita, uma sinagoga ou outro espaço religioso não oferecem apenas crenças.

Podem oferecer pessoas.

Alguém percebe quando você não aparece.

Alguém pergunta como você está.

Existem encontros, rituais, conversas, abraços e uma sensação de pertencimento.

Gontijo chamou atenção para pesquisas que sugerem que justamente essa dimensão social pode explicar parte da associação encontrada entre religiosidade e bem-estar.

Isso me chamou particularmente a atenção porque tenho refletido bastante sobre vínculos e saúde mental (leia sobre o Losango Social da Vida Moderna).

Quando atravessamos momentos difíceis, ter pessoas com quem dividir nossas experiências pode fazer diferença.

Talvez parte da força encontrada por algumas pessoas na religião esteja também em algo profundamente humano: não precisar atravessar tudo sozinho.

Mas a religião também pode produzir sofrimento?

Pode.

E reconhecer isso não significa ser contra a religião.

Durante a palestra, foram apresentados exemplos de situações nas quais determinadas experiências religiosas podem estar associadas ao sofrimento: crenças em um Deus exclusivamente punitivo, conflitos dentro da comunidade religiosa, crises de fé e até contextos nos quais uma interpretação religiosa pode afastar alguém de um tratamento de saúde necessário.

Imagine alguém com sintomas importantes de depressão que escuta: “Você não precisa de tratamento. Precisa apenas ter mais fé.”

Agora, além da depressão, talvez exista outra dor: “Se continuo mal, será porque minha fé é insuficiente?”

A frase que pretendia ajudar pode acrescentar culpa ao sofrimento.

Fé e tratamento psicológico ou psiquiátrico não precisam necessariamente competir.

Para muitas pessoas, podem ocupar lugares diferentes e coexistir.

O que um psicólogo faz quando um paciente fala sobre Deus?

Talvez esta tenha sido minha principal aprendizagem na palestra.

Em determinado momento, Gontijo apresentou três posturas possíveis do psicólogo diante da espiritualidade.

Uma delas seria:

“Fé não entra aqui.”

Outra:

“Você precisa ter fé.”

E uma terceira:

“Fale mais sobre sua fé.”

É nessa terceira que encontro uma postura clínica muito mais interessante.

Não preciso compartilhar da crença de uma pessoa para querer compreender o significado que ela possui em sua vida.

Posso perguntar:

O que sua fé representa para você?

Como essa crença ajuda quando você está sofrendo?

Existe alguma parte dela que tem provocado culpa ou medo?

Como sua comunidade religiosa participa da sua vida?

Isso não é teologia.

É Psicologia.

É tentar compreender a experiência daquela pessoa a partir do mundo em que ela vive — e não daquele em que o terapeuta gostaria que ela vivesse.

E quando alguém relata uma experiência espiritual incomum?

Esse talvez seja um dos pontos mais delicados.

Uma pessoa relata ter visto uma entidade espiritual.

Outra diz ter recebido uma mensagem de Deus.

Outra relata ouvir uma voz que interpreta religiosamente.

O psicólogo não deveria automaticamente concluir: “Isso é um transtorno mental.”

Mas também não deveria automaticamente concluir: “Isso é uma experiência espiritual verdadeira.”

A palestra trouxe justamente essa necessidade de cuidado.

É preciso compreender o conjunto.

Aquela experiência está provocando sofrimento?

Há prejuízo no trabalho, nos relacionamentos ou no autocuidado?

Existem outros sintomas?

Como aquela experiência se encaixa na cultura e na religião daquela pessoa?

Há necessidade de avaliação de outros profissionais?

Uma experiência incomum, isoladamente, não responde a todas essas perguntas.

A TCC também precisa conhecer o mundo do paciente

Esse ponto conversa muito com a maneira como compreendo minha prática na Terapia Cognitivo-Comportamental.

Quando um paciente apresenta um pensamento, não analisamos aquela frase solta.

Queremos compreender seu significado.

Sua história.

Suas crenças.

Suas emoções.

Seus comportamentos.

E o contexto em que tudo isso acontece.

A palestra me fez reforçar algo que considero importante na prática clínica: se a espiritualidade é importante para o paciente, ela também é uma informação relevante para compreendermos sua experiência.

Isso não significa transformar a sessão em aconselhamento religioso.

Significa exatamente o contrário.

Significa não colocar minha própria visão de mundo acima da dele.

Talvez a pergunta não seja “você acredita em Deus?”

Talvez existam perguntas mais interessantes: 

Como aquilo em que você acredita influencia a maneira como vive?

Sua espiritualidade aproxima você das pessoas ou aumenta seu isolamento?

Produz esperança ou medo?

Ajuda você a enfrentar seus problemas ou impede que procure ajuda?

Traz acolhimento ou culpa?

Uma mesma fé pode ocupar lugares muito diferentes na história de duas pessoas.

Por isso, depois dessa palestra no Congresso Wainer, fiquei com uma frase simples:

Na psicoterapia, talvez não seja necessário discutir se aquilo em que você acredita é verdadeiro. Precisamos compreender o que essa crença está fazendo com você.

E talvez essa seja uma boa pergunta para levar para a vida também.

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