Há uma diferença entre escrever sobre saúde mental e poder conversar sobre ela olhando para as pessoas, ouvindo suas perguntas e percebendo quais questões realmente atravessam seu cotidiano.
Hoje tive a oportunidade de viver justamente essa experiência.
A convite do Núcleo de Acolhimento e Atenção ao Estudante (NAAE) do SENAI CIMATEC, participei da mesa-redonda “Saúde Mental e Práticas do Dia a Dia”, dentro das ações do Setembro Amarelo.
Estive ao lado dos psicólogos Alex Reis e Jársia Melo, parceiros com quem também compartilho outro projeto muito especial: somos coautores do livro Saúde Mental: Desafios, Reflexões e Perspectivas.
Se antes nossas ideias se encontraram nas páginas de um livro, dessa vez elas se encontraram diante de alunos e professores dispostos a conversar sobre algo que diz respeito a todos nós: como cuidar da saúde mental enquanto a vida continua acontecendo.
Saúde mental também se discute no cotidiano
Uma das coisas que mais gosto nesse formato de mesa-redonda é justamente não saber exatamente para onde a conversa vai.
Não estávamos ali apenas para fazer exposições sobre Psicologia. Os participantes puderam trazer perguntas, inquietações e situações próximas daquilo que vivem.
Falamos, entre outros assuntos, sobre cobrança e sobrecarga no ambiente profissional, sobre a dificuldade que algumas pessoas encontram para admitir que chegaram ao limite e sobre o medo de serem percebidas como fracas ou incompetentes quando dizem que não estão conseguindo dar conta de tudo.
Uma das reflexões que levei para a conversa foi justamente esta:
Cuidar da saúde mental e assumir responsabilidades não precisam ocupar lados opostos.
Às vezes, criamos uma falsa escolha: ou sou produtivo, responsável e dou conta do que precisa ser feito, ou paro para cuidar de mim.
Mas talvez a pergunta mais saudável seja outra:
Como posso sustentar minhas responsabilidades sem precisar me abandonar no processo?
Precisamos mesmo dar conta de tudo sozinhos?
Outro ponto importante da conversa foi a busca por ajuda.
Nossa rede de apoio tem enorme valor. Conversar com amigos, familiares e pessoas em quem confiamos pode oferecer acolhimento, companhia e suporte em momentos difíceis.
Mas existem situações em que isso não substitui um acompanhamento profissional.
A psicoterapia oferece um espaço estruturado de escuta e compreensão, conduzido por um psicólogo preparado técnica e eticamente para esse trabalho.
E procurar ajuda não precisa acontecer apenas quando a pessoa sente que “não aguenta mais”.
Muitas vezes, o cuidado começa justamente quando conseguimos reconhecer que alguma coisa merece ser compreendida antes que o sofrimento ocupe ainda mais espaço na nossa vida.
Quando o livro sai das páginas
Esse encontro teve ainda outro significado especial para mim.
Alex, Jársia e eu já havíamos dividido as páginas de Saúde Mental: Desafios, Reflexões e Perspectivas. Ao final da mesa-redonda, tivemos também um momento de autógrafos e conversa com os participantes.
E talvez essa tenha sido uma boa representação do que acredito que deva acontecer com o conhecimento em Psicologia.
Ele não deveria permanecer apenas dentro das universidades, dos artigos científicos, dos congressos ou dos livros.
Precisa encontrar as pessoas.
Precisa ser traduzido.
Precisa provocar perguntas.
Precisa fazer sentido na vida cotidiana.
No livro, contribuo com o capítulo “Losango do Círculo Social na Vida Moderna”, no qual proponho uma reflexão sobre nossos vínculos ao longo da vida e sobre como as transformações na maneira de nos relacionarmos — inclusive por meio das tecnologias — podem repercutir na saúde mental.
Ver um trabalho que começou na escrita chegar às mãos de novos leitores tem sempre um significado diferente.
E autografar um livro sobre saúde mental depois de passar parte da tarde justamente conversando sobre saúde mental tornou esse momento ainda mais simbólico.
Psicologia também precisa ocupar esses espaços
Como psicólogo, considero importante que nosso trabalho não fique restrito ao consultório.
A clínica é uma parte fundamental da minha atuação, mas acredito também na importância da psicoeducação e da aproximação entre o conhecimento psicológico e a sociedade.
Participar de encontros como esse permite ouvir perguntas que talvez nunca aparecessem em uma palestra tradicional.
E frequentemente são justamente essas perguntas que mostram onde estão as dúvidas, os medos e até algumas ideias equivocadas que ainda temos sobre saúde mental.
Não precisamos transformar toda dificuldade da vida em um problema psicológico.
Mas também não precisamos esperar que o sofrimento se torne insuportável para começar a olhar para ele.
Entre esses dois extremos existe algo muito importante: cuidado.
Das páginas para novas conversas
Saio do SENAI CIMATEC agradecido pelo convite do NAAE, pela participação dos alunos e professores e por mais uma oportunidade de dividir esse espaço com Alex Reis e Jársia Melo.
Começamos compartilhando páginas.
Hoje compartilhamos uma mesa, perguntas, experiências e, no final, uma mesa de autógrafos.
É interessante perceber como um livro continua sua história depois de publicado.
Cada novo leitor leva aquelas páginas para uma realidade diferente. Cada conversa produz novas perguntas. E cada pergunta pode abrir espaço para enxergarmos algo que antes passava despercebido.
Talvez seja justamente por isso que falar sobre saúde mental continue sendo tão necessário.
Porque falar sobre saúde mental também é uma forma de cuidar dela.




